Trekking na Mongólia

 

 

Foi durante o Trekking ao Campo Base do Everest com o Manoel Morgado, que surgiu a ideia de fazer uma viagem para a Mongólia. Na verdade, esse destino esta há tempos nos meus planos e quando vi que a Morgado Expedições tinha um trekking pra lá, me animei na hora. E ainda fiz um convite aos meus filhos, Frederico com 17 e Victoria com 16 em nos acompanharem nesta aventura. Eles toparam. Começamos os preparativos 6 meses antes da jornada. Preparo físico e compra do material necessário. Eu e meu marido já tínhamos tudo por conta do Campo Base, mas os meninos precisaram comprar tudo.

E julho chegou num piscar de olhos. Quando vimos, estávamos embarcando para Pequim, via Dubai. A ansiedade era grande, já que também me perguntava se eles iriam gostar e aguentar a aventura a qual estávamos propondo. Confesso que por alguns instantes, tive medo da minha filha não aguentar o tranco do trekking. Passamos três dias em Pequim, já que eles ainda não conheciam. Foi fantástico apresentar a China para dois adolescentes em formação. O outro lado do mundo é fascinante e eles amaram subir a Muralha da China, visitar a Cidade Proibida e passear pelos mercados de rua tão diferentes e exóticos para os ocidentais. Ter a oportunidade de mostrar a Ásia  que eu tanto amo para os meus filhos, parecia um sonho e eu me beliscava o tempo todo para acreditar que estava ali com eles.

E a nossa aventura estava só começando. Conhecer um pouco da história do país de Gengis Khan parecia um sonho tornando realidade. Afinal, foi ele o responsável pela fundação do Império Mongol no século XIII e figura venerada na cultura local. Seu local de nascimento em 1162, seus possíveis locais de sepultamento, supostas relíquias pertencentes ao antigo conquistador mongol, são celebrados em procissões e feriados nacionais considerados sagrados em todo o país. Gengis Khan nasceu cercado de lendas sobre a vinda de um lobo que devorava toda a Terra. Ainda jovem, matou o lobo e ficou muito famoso em sua tribo, enfrentou a rejeição de sua família por seu próprio clã, mas voltaria para conquistar sua liderança, vencer seus rivais de clãs distintos e unificar os povos mongóis sob o seu comando. Estrategista brilhante, com hábeis arqueiros montados à sua disposição, venceu a grande Muralha da China, conquistou aquele país e estendeu seu império em direção a oeste e ao sul. Gengis morreria antes de ver seu império alcançar sua extensão máxima. Ele foi sem dúvida, o maior imperador que mais territórios conquistou na história, dominando quase 20 milhões de km2.

A Mongólia é um país sem costa marítima localizado na Ásia Oriental e Central. Faz fronteira com a Russia ao norte e com a China no sul, leste e oeste. Embora a Mongólia não partilhe uma fronteira propriamente dita com o vizinho Cazaquistão, está apenas a 38 km do país, super próximo. É o 18º maior país do mundo e o país independente com menos densidade populacional do mundo, com uma população de cerca de 2,9 milhões de habitantes. É também o segundo maior país do mundo sem costa marítima depois do Cazaquistão. Cerca de 30% da população são nômades ou semi-nômades. A religião predominante no país é o budismo. E os cazaquis são muçulmanos e representam cerca de 6% da população. O país é escasso em terra arável, sendo a maior parte de sua área coberta por estepes, com belas montanhas ao norte e oeste do país. O deserto de Gobi fica ao sul e faz fronteira com a China. O clima é muito duro, com verões amenos e invernos muito rigorosos, com temperaturas que chegam a -50º em alguns pontos do país.

A economia da Mongólia é baseada na produção agro-pastoril, com 90% das exportações constituídas de animais e derivados, mas muito limitada pela distância do país e pelas precárias estradas sem infra-estrutura. Quase um terço da população é nômade e vivem em Yurt ou Ger, que são tendas ou cabanas circulares usadas tradicionalmente pelos pastores nômades mongóis e por outros povos da Ásia Central.

No início do século XX, a recém formada União Soviética instalou na jovem república mongol, um líder com orientações bolcheviques, que lideraria um processo que levaria à instauração de um regime comunista, em 1925. A República Popular da Mongólia só foi reconhecida pela China em 1946. As dissensões entre Rússia e China fizeram com que as relações entre China e Mongólia fossem praticamente encerradas até a dissolução do Partido Comunista Mongol e a queda do regime em 1990. De lá pra cá, a Mongólia experimenta um regime semipresidencialista com eleições diretas a cada quatro anos, além de um renascimento cultural e religioso sem precedentes nos 75 anos de comunismo.

Segue o nosso roteiro detalhado dia a dia:

1º DIA Dali voamos para Ulan Baatar, capital da Mongólia. É a maior cidade do país cerca de 820 mil habitantes, cerca de 45% total da população do país. Fundada em 1649 e localizada no centro-norte do país, é o principal centro econômico, corporativo e cultural do país. Ali também é onde tem o maior centro da rede de estradas da Mongólia, sendo servida por um transporte ferroviário extenso, incluindo a Transiberiana, que interliga o sistema ferroviário entre China e Russia. Chegamos ao meio dia e aproveitamos para fazer um reconhecimento de área na cidade mongol. Ulan Baatar é grande, tem prédios modernos que contrastam com áreas menos favorecidas nos arredores. Um contraste bem interessante. como o alfabeto é cirílico, muitas vezes me fez lembrar a Rússia. Aqui uma idéia da praça principal da cidade:

Assistimos a um show típico de música e dança tradicional que acontece todas as tardes às 18 horas, destaque para o famoso Throat Singing e a incrível contorcionista.

O resto do dia foi dedicado a arrumar a mala do trekking, que tem limite de 15 kg e organizar tudo para a partida logo cedo no dia seguinte.

2º DIA Partimos logo cedo em direção a Ulgi, noroeste do país, cerca de 1600km de Ulan Baatar e 3 horas de voo, voando Hunnu Air.

Dali já fomos para os arredores da pequena cidade mongol em carros modelo russo da Segunda Guerra para assistirmos o Nadam, o maior festival da Mongólia, que acontece todos os anos no mês de julho.

E a ideia de assistirmos nos arredores de Ulgi era justamente ter uma experiência mais autêntica do festival, do que assisti-lo em Ulan Baatar, com ares de cidade grande.

Esta viagem é montada nesta época exatamente para aproveitarmos o festival, chamado de “As Olimpíadas das Estepes”, onde são feitas corridas de cavalos, lutas livres e competições de arco e flecha. Cada modalidade apresenta suas peculiaridades: a corrida de cavalos é disputada em grandes distâncias, chegando a 25 km e seus jóqueis são meninos de 5 a 9 anos, montando seus cavalos no pêlo.

Foi emocionante assistir a uma prova dessas! É o mais prestigiosos dos três esportes.

 

Luta livre é o único esporte exclusivamente masculino e os lutadores são fortes pra caramba! Nosso grupo até ensaiou uma luta, e ganhou!

Já o arco e flecha é pura precisão e elegância com os competidores, homens e mulheres, usando suas melhores roupas tradicionais.

Tivemos a chance de assistir a uma cerimônia de casamento durante o festival. Fartura de comida para os noivos e seus convidados.

Fui convidada a dançar durante o festival com uma platéia lotada de cazaquis e mongóis, uma experiência pra lá de divertida, uma verdadeira imersão cultural!

Nada me deixa mais feliz em uma viagem do que interagir de corpo e alma com o povo local. Ali pude experimentar me comunicar com crianças, idosos, de uma forma única, mesmo sem falarmos a mesma língua. Foram momentos que levarei pra sempre dentro de mim e memórias de um dia fabuloso que jamais esquecerei.

Ver meus filhos interagindo com o povo foi imensamente prazeroso!

Pernoitamos pela primeira vez em barracas e sacos de dormir. Uma barraca-refeitório foi montada o tempo todo para fazermos as refeições que foram bem variadas durante todo o trekking: de carne de ovelha à macarrão, legumes, arroz com ovo e por aí vai. Um desafio diário, mesmo para mim, que não tenho grandes restrições alimentares.

Foram montadas “tendas banheiro”com um buraco aberto ao chão e estas barraquinhas individuais, azul para os homens e rosa para a mulheres, mas nem sempre foram respeitadas… durante o dia o banheiro era ao ar livre, sempre atrás de pedras ou moitas, um desafio diário de sobrevivência…

3º DIA Viajamos cerca de 200km, 7 horas por conta das estradas de terra precárias nos carros russos rumo a entrada do Parque Nacional Altai Tavanbogd. O visual da estrada começava a dar sinais das belas vistas de montanhas e rios que iríamos encontrar por todo o trajeto do trekking.

Tiramos fotos com as famosas águias, que tem um papel muito importante na região da Mongólia, são treinadas para a caça e abastecem as famílias durante o longo inverno, onde as temperaturas chegam a -50º. São lindas, pesadíssimas e imponentes!

 

 O rio de águas brancas às margens do nosso acampamento era de uma beleza indescritível. Ali passamos a noite e no dia seguinte já começaríamos literalmente a levantar acampamento e sair caminhando. O trekking começa pra valer!

4ºDIA Acompanhado de uma turma de guias locais, cozinheira, camelos báctrios de carga carregando nossas bagagens e seus zelosos cuidadores, demos início ao trekking  por paisagens surreais de lindas! Passamos por famílias nômades, conhecemos os gers por dentro, tomamos leite de égua fermentado, o Airag, bolachas caseiras, queijos fabricados ali mesmo, provamos a comida bem local.

Caminhamos por cerca de seis horas a uma altitude de 2.150 metros e paisagens deslumbrantes por todo o percurso.

O almoço era sempre servido do meio do dia, parávamos em algum ponto e a turma preparava tudo em um passe de mágica! A infra deles é impressionante e eficiente o tempo todo!

O fim do dia sempre era no acampamento nos preparando para o dia seguinte. Os dias nesta época do ano são muito longos e só escurecia por volta de 22:00h, íamos dormir por volta das 21:00h com o dia ainda claro.

 

5º DIA O despertar era todos os dias às 6:00h em ponto. Hora de arrumar tudo, dobrar os sacos de dormir, arrumar os duffles, preparar as mochilas, repor o material, enfim, um processo que levava cerca de uma hora. 7:00h o café era servido na tenda refeitório e 8:00h a partida. Foi um dia light, uma caminhada leve de 6 horas entre os lagos e paisagens belíssimas, quase planas todo o percurso. Até brincamos que seria um Trekking Nutella, até agora estava super tranquilo!!!

6º DIA Hoje a caminhada foi longa e dura, cerca de 8 horas embaixo de chuva forte. Foi muito difícil caminhar embaixo d’água, já que por vários momentos tínhamos grandes pântanos para atravessar e que com chuva, tornaram o trajeto mais sofrido. Foi o primeiro dia que vi o grupo desanimado, estávamos em 24 pessoas. Meus filhos davam sinal de cansaço e desânimo. Foi um dia bem difícil. Mas pontuado por uma paisagem linda no fim do dia quando a chuva deu uma trégua. Fizemos uma travessia em uma floresta temperada que nos levou a um outro vale. Um belíssimo lago cercado por uma floresta no meio do caminho animou nossos corações cansados!

Apesar de subirmos e descermos bastante, o acampamento foi na mesma altitude dos dias anteriores. Mesmo com as 8 horas de caminhada, não paramos para almoçar e economizamos tempo, chegando relativamente cedo ao acampamento, cerca de 16 horas. Chegando lá, percebemos que muitos duffles (as malas maleáveis que os camelos carregam com nossas roupas, e que teoricamente são à prova d’água, haviam molhado parte das roupas). Meu marido inventou um varal para secá-las e por sorte o fim do dia foi sem chuva no acampamento. As preces à noite foram para um dia seguinte sem chuva.

 

6ºDIA  Os deuses ouviram nossa preces e acordamos hoje com sol e com os ânimos renovados!

Deixamos a região dos lagos e tivemos uma grande variedade de subidas e descidas em terrenos mais irregulares e diferentes paisagens ao longo do dia.

Começamos nosso dia com uma subida gradual de 200 metros até chegarmos ao fim do vale quando viramos ao norte e subimos outros 400 metros verticais, desta vez foi de uma maneira bem mais íngreme. Foi bem difícil e cansativo o trajeto.

Após 5 horas de uma dura subida, chegamos ao passo a 3200 metros de onde tivemos uma das mais lindas vistas tanto do sul, de onde viemos, quanto ao norte, nosso destino. Na descida, olhando em direção ao passo, vimos belíssimos paredões de gelo cobrindo toda a face sul das montanhas. Olhando as fotos agora, nem dá pra imaginas que atravessamos tudo isso…esses glaciares tão imponentes…somos um nada perto deles. Foi indescritível a sensação! Uma paisagem estonteante!

Após o almoço, descemos 450 metros até chegarmos a um lindo platô normalmente habitado por nômades da etnia Tui que habitam tanto esta região como o Altai russo. Ao contrário dos casaquis que são muçulmanos, os Tui são budistas.

Acampamos a 2700 metros de altitude próximo a um rio. Vamos falar agora dos banhos… a maioria dos dias era sem banho, apenas com banhos de rio… água congelante de degelo…. o único que conseguia era meu filho e mais uns 5 caras muito corajosos… eu só encarei o rio uma vez, em um dia mais quente, mas mesmo assim, congelei. No começo da viagem, eles montaram um esquema de banho com um galão em cima do carro que funcionava para um banho rápido de “gato”. Os outros dias  higiene foi feita com lenços umedecidos e muita reza rsrsrsrs.

7º DIA Já que os dias anteriores foram bem puxados, hoje o dia foi leve e curto. Seguimos em direção norte e depois em direção oeste, perdendo altitude até chegarmos a um vale onde está a entrada do Parque Nacional. No caminho cruzamos vários rios, tendo que tirar as botas ou atravessando a cavalo. Nada agradável a temperatura da água de degelo. Sempre que possível, eu optava por atravessar à cavalo.

 

8º DIA  Saimos do vale e gradualmente subimos em direção ao Campo Base das montanhas mais altas da região: Malchin e Khuiten. Ambos com vista para os três países que fazem fronteira: China, Russia e Sibéria. Conforme fomos subindo, montanhas nevadas começam a aparecer em profusão, fazendo o caminho de uma beleza ímpar. Após 6 horas de caminhada, chegamos ao acampamento a 3100 metros de altitude e um visual surreal de lindo com o Malchin ao fundo nos abençoando. Ainda não estava certa se ia subir o Malchin no dia seguinte. Eu e minha filha íamos decidir quando acordássemos. O corpo dava sinais de cansaço e diferente do Campo Base do Everest, o Malchin não tinha tanta importância pra mim. Pelo menos até chegar ao seu Campo Base. Quando olhei pra ele ali, imponente, pensei: poxa, cheguei até aqui e não vou subir? Mudei rapidamente de ideia e foi dormir com a certeza de desbravá-lo no dia seguinte.

9º DIA Preparados e com frio na barriga para encarar a subida ao Malchin com seus 4.100 metros de altitude. A subida é feita por uma trilha de terra e muitas pedras, algumas enormes e super escorregadias, até chegarmos ao colo a 3900 metros de altitude. Foi muito dura caminhada inicial e a subida nem te conto…O clima estava bem instável com ventos de até 100km/hora. O grupo foi se dividindo a medida em que fomos subindo. Os mais corajosos na frente, em um grupo de 6 homens, incluindo meu filho e meu marido. Um segundo grupo das meninas, éramos em 4 e ficamos estancadas a apenas 100 metros do cume. Os ventos eram assustadores e decidimos por abortar os 100 metros finais, por segurança, estava realmente muito perigoso. Os que conseguiram chegar nos contaram que a vista era indescritível, já dava para ver bem antes mesmo de chegar lá. Um visual único. Mas era tanto frio e tanto vento, que tirei apenas uma foto perto do cume. Tive medo do celular voar das mãos.

Ao todo foram 8 horas entre subir e descer. A descida foi bem difícil de verdade. Pedras soltas pelo caminho, davam muita instabilidade. Fomos tomados por uma exaustão, afinal foram quase 9 horas entre subir e descer. Mas valeu ter vivido essa experiência. Chegar ao acampamento em segurança foi um prêmio. Dormimos felizes aquela noite.

10º DIA Acordamos com o acampamento todo branco de neve. Nevou bem a noite toda. Foi lindo ver aqueles vales todos brancos…

Começamos a caminhada de volta por lindas estepes com as montanhas nevadas ao fundo nos despedindo de nós. Estávamos na reta final da nossa grande aventura.

Aqui com Manoel Morgado, que tem os sete cumes completados e dezenas de trekkings pelo mundo, viajar com ele faz toda diferença e nos sentimos muito seguros o tempo todo com sua expertise de 30 anos de montanha.

 

O corpo cansado e a falta de conforto foram dominados por uma sensação única de dever cumprido. Uma viagem linda, onde fizemos grandes amigos, aprendemos a respeitar mais os outros e suas diversiddaes. Uma verdadeira história de vida. Meus filhos amaram a experiência e foi sem dúvida, um marco na vida dos dois.

11º DIA Hoje voltamos nos carros russos até Ulgi, cerca de 6 horas de viagem e o sonho em tomar um banho de chuveiro se aproxima e é a única coisa que eu penso durante o trajeto de volta.

12º DIA Vôo de volta a Ulan Baatar e jantar de despedida do nosso grupo, e que turma boa!!!!!!

Foi uma experiência e tanto. Quando estamos no trekking e passamos os sufocos, juramos que nunca mais voltaremos. Foi assim no campo Base do everest. Aqui na Mongólia não foi diferente. A medida que o tempo passa, nos damos conta do feito e só ficam as boas lembranças. Pode parecer papo de montanhista, eu nem me considero uma, já que dois trekkings apenas é muito pouco. Sou uma aspirante a montanhista. Mas quem sabe um dia me animo e volto para outra viagem destas. Por enquanto os planos são outros para o ano que vem…mas nunca se sabe…meu coração aventureiro é quem manda sempre…

Fotos Flavia Pires, todos os direitos reservados.

 

 

Article source: http://www.flaviapiresexplora.com.br/destinos/trekking-na-mongolia/

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