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Lisboetas ficam enfurecidos após explosão do turismo na cidade

(SÃO PAULO) – Desde que o bonde número 24 deixou de subir uma das famosas colinas de Lisboa, duas décadas atrás, os moradores vinham pedindo seu retorno. Por isso, a entrada em serviço do rebatizado Tram Tour em maio, em uma rota mais curta conhecida pelas vistas dos morros da cidade, poderia ter sido um motivo de alegria.

Em vez disso, para os moradores o bonde se transformou no mais recente símbolo de atenção aos turistas, enquanto eles são literalmente deixados para trás. Lisboa é o destino urbano de mais rápido crescimento no sul da Europa em termos de pernoite de hóspedes desde a crise financeira global, em meio a um crescimento sem precedentes do setor de turismo do país, avaliado em US$ 11,6 bilhões.

O bonde é “um pouco insultante para os moradores de Lisboa”, disse Mário Alves, que está entre as mais de 2.500 pessoas que assinaram uma petição exigindo outro serviço de bonde também voltado aos moradores locais, que, com a passagem a 6 euros (US$ 6,7), custa mais do que o dobro de outros meios de transportes da cidade e visa os visitantes. “Outros bondes ficam muitas vezes lotados de turistas e alguns moradores idosos da cidade são obrigados a caminhar”.

A repercussão não se limita aos bondes: grupos de moradores de toda a cidade estão pedindo mais regulamentação para limitar o impacto do fluxo turístico. As autoridades responsáveis pelos bairros estão defendendo que Lisboa se una a cidades europeias como Barcelona, que congelou a abertura de hotéis. Uma melhor coleta de lixo em zonas com muito trânsito e a repressão ao consumo de álcool em público também são necessárias, disseram.

Apesar de Lisboa não ter anunciado nenhum plano similar, o ministro da Economia de Portugal concorda que algo deve ter que ser feito. Embora o turismo seja crucial para a economia, “há aspectos que precisam ser equilibrados, como o barulho em determinadas áreas de Lisboa”, disse António Pires de Lima no dia 11 de agosto.

Um total estimado de 3,6 milhões de hóspedes estrangeiros, ou mais de 6,5 vezes a população da cidade, visitará e pernoitará em Lisboa neste ano — um múltiplo até mais elevado que o de Barcelona, que espera receber 7,6 milhões de visitantes internacionais.

O aumento ajudou a tirar Portugal da recessão e deverá representar 15,8 por cento do PIB do país em 2015. Contudo, os moradores locais estão se sentindo cada vez mais deixados de lado enquanto os turistas invadem suas ruas, seus meios de transporte e até seus apartamentos, mudando a estrutura da cidade.

Rua Rosa

O epicentro da crescente tensão entre moradores e turistas passou a ser o bairro Cais do Sodré, à margem do rio, que décadas atrás era um dos esquecidos da cidade. Suas ruelas escuras com um punhado de bordéis ficavam cheias de marinheiros e moradores.

Em 2011, tudo mudou. O bairro ganhou uma reformulação e a Rua Nova do Carvalho, a principal, foi fechada para o trânsito, pintada de rosa fluorescente e apelidada de Rua Rosa. Hotéis, apartamentos para turistas, restaurantes e bares se estabeleceram na região.

“Atualmente, cerca de 70 por cento a 80 por cento dos nossos clientes são turistas”, disse Catarina Cabrita, bartender da Champanharia do Cais, na Rua Rosa. “Os negócios são excelentes”.

Morar aqui é outra história, dizem os moradores.

“Ficou pior”, disse Isabel Sá da Bandeira, que mora a 100 metros da Rua Rosa e dirige uma organização chamada “Aqui mora gente”, que tem o objetivo de fazer com que as autoridades lembrem que existem moradores na região. “Esta área costumava estar em más condições, mas todos nós podíamos dormir à noite, porque tudo era feito a portas fechadas. Agora o agito é em qualquer lugar”.

Sem legislação para restringir o crescimento, contudo, os lisboetas poderiam precisar aprender como conviver com isso, pelo menos no curto prazo, disse Eduardo Abreu, sócio da firma de consultoria de turismo Neoturis, com sede em Lisboa, que chama as divergências de “dores do crescimento”.

“Quando uma cidade passa por uma explosão do turismo tão sem precedentes, é óbvio que ocorrem situações desagradáveis”, disse Abreu. “Mas os moradores de Lisboa precisam aprender a conviver com os turistas. Afinal, se você vai a Londres, Paris ou Nova York, você sempre encontrará milhares de turistas em lugares como a Piccadilly Circus, a Torre Eiffel ou a Times Square. É inevitável”.

Por Henrique Almeida

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